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  • Tiago Sant'Ana

POBRE EM ESPÍRITO

Atualizado: 1 de Mai de 2018




O que de fato é ser pobre de espírito? Esse primeira bem-aventurança, caminha pelo ato inquestionável de que quem é pobre sofre de alguma carência, está desfavorecido em algo, portanto, como esse ser é bem-aventurado, isto é, feliz.


Vamos primeiro tratar de algumas alternativas a respeito dessa pobreza. Será que esta tem a ver com a falta de recursos monetários? Notoriamente, o povo que ladeava Jesus não tinha uma vida abastada, muitos trabalhavam no campo, pesca, pastoreio de animais ou na mão-de-obra de construções. Por exemplo, dentre algumas imposições aos trabalhadores do campo, estava a dos romanos ficarem com 12,5% da produção agrícola. O Templo, somando diferentes tributos, arrecadava outros 22%. Como um quinto do que se colhia era reservado como semente, sobrava menos da metade da colheita para o agricultor.


Apesar de ser um povo pobre de recursos financeiros, não era essa a pobreza que Jesus está exaltando. Seria então aquela própria determinada por uma ignorância intelectual? Falta de conhecimento? Também não. As escolas da Palestina no tempo de Jesus Cristo eram tradicionalmente o resultado da influência de um famoso fariseu e escriba, Simão ben Shatach, que viveu cerca de 75 a. C. Segundo o Talmude, ele decretou que todas as crianças frequentassem uma escola elementar. Um outro rabino, Josué ben Gamla instituiu escolas públicas para rapazes de seis e sete anos de idade em todas as cidades da Palestina. Havia um professor para cada vinte e cinco rapazes. Se houvesse quarenta rapazes, era dado um assistente ao professor. A instrução era limitada, mas completa. Antes da criança ir para a escola, era obrigada a aprender em casa o Shema, ou credo judaico (Dt 6:4), a que Jesus se referiu quando lhe perguntavam qual era o maior mandamento da lei (Mt 22:35-38). Devia também ter aprendido de memória passagens do Torah, certos provérbios comuns e alguns Salmos escolhidos.


Portanto, se não é pobreza por falta de dinheiro ou por falta de conhecimento e empenho intelectual, qual a pobreza de que Jesus fala? Bem, só sabemos que há pobreza por que seu contraponto social está a nossa disposição, ou seja, a riqueza. Só sei que algo é pequeno, pois há o confronto a um grande. Essa pobreza de espirito está em confronto com a realidade divina.


Quando a experiência epifânica nos toma de assalto, Deus se manifesta ao coração de alguém, há uma consequente tomada de consciência de quem somos. Para não ocorrer divagações, lembremos de Moisés perante a sarça que queimava e não se consumia. A voz de Deus conclama ao curioso expectador: “Tire as sandálias dos pés, pois o lugar que você está é terra santa”. Deus não está envolto da preocupação própria de quem acaba de passar pano no chão da casa e não quer que alguém entre marcando e sujando tudo, ou seja, não é mero capricho.


Ao tocar descalço no chão, Moisés tem contato com a matéria-prima que foi formado. Moisés está pisando na terra, no pó que o formou. Quando Deus pede para que aquele tire sua sandália, está provocando a seguinte consciência: “Sinta quem você é. Do que você é formado. Você é pó e é para ele que retornará. ” Há ali um distanciamento de realidades quando o pé toca no chão. Deus é grande, Moisés pequeno. Deus é eterno, Moisés finito. Deus é incondicional, Moisés cheio de condicionamentos. Deus é, Moisés está.


Ser pobre de espirito é pisar na terra e sentir-se como parte dela. Caminhar sobre a vida e se reconhecer como desempoderado, desmistificado, fraco, pequeno e nu. É ver o pó subindo do chão e ouvir no ressoar do vento que a vida da gente é levada pelo sabor incontrolável do tempo. Como também é ver a poeira baixar e sossegar, pois a tempestade nem sempre tem protagonismo.


Bem-aventurado (felizes) os pobres em espirito porque deles é o Reino dos céus. Felizes os que se conhecem, que sabem do que são constituídos, pois se voltaram para aquele que é gerador e mantenedor da vida e reconheceram intimamente: “Não posso viver sem Deus! ” Para esses o Reino foi conquistado, os alicerces de suas casas já começaram a ser lançados e na terra há sinais que o paraíso, mesmo que minimamente, pode ser antecipado.


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