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  • Tiago Sant'Ana

OS HUMILDES CONQUISTADORES



No Sermão da montanha, Jesus acentua que felizes são os humildes, pois eles receberão a terra por herança. Creio que ser humilde e ter posse de algo, pode não combinar muito para algumas pessoas. Cada vez mais indivíduos querem se laurear de poder, êxito e acúmulo. Ter ultrapassou de maneira abismal as perspectivas do Ser, e nesse processo de ganho e aumento das cifras, vai se perdendo paulatinamente a alma. A derrota silente desse indivíduo “conquistador” será desalmar-se.


Portanto, nos parece em primeira mão que humildade e conquista de algo são contraditórias, porém será que Cristo não tem algo a nos referenciar a partir de sua vida? Olhar para a história e para existência deve ser um exercício cotidiano, não há como viver responsável e autenticamente sem a demanda de um repensar e de um ruminar aplicado, todavia, podemos estar vendo sem enxergar, embaçados pelo conjunto de uma obra desfigurada por pré-conceitos e para que isso não ocorra, Jesus precisa ser o horizonte de nossa interpretação. Vê através dele! Como? É só exercitar a leitura e consumir os evangelhos, ouvindo-o e vendo-o além da escrita.


A primeira coisa que precisa ficar clara é que humildade não é desmerecer quem se é, como também, não é o ocultamento de um currículo por preocupação do exibicionismo, todavia, ser humilde é reconhecer quem se é e não fazer disso o martelo que despedace a incapacidade ou a impotência alheia. Como é também ter consciência do que se tem e não viver aprisionado a isso como se uma divindade fosse, mas é perceber nisto, o aspecto contingencial e transitório, isto é, ora é e daqui um instante não mais.


Quando Deus se fez homem em Jesus e assim habitou entre nós, totalmente consciente de quem era e do que tinha, não utilizou isso para nos destruir pelo Poder que é, antes se esvaziou e assumiu a forma de serviçal, daquele que se coloca à disposição da carência humana. Qual carência? A da alienação de si, de Deus, do outro, da natureza de tudo que o cerca. Abandonados por si mesmo, nas quatros paredes concretadas e na fria grade de uma solitária, a humanidade ensoberbeceu o coração como resposta as constatações de seu autoabandono. Somos assim! Quando alguém fala a verdade sobre nós, há um incômodo e um desajuste, que nos faz querer eliminar o Verdadeiro em detrimento de nossa falsidade.


Jesus se esvaziou, isso não quer dizer que ele deixou de ser Deus nos atributos que lhe são próprios, mas sim que abdicou usá-los. Estava ali para quando ele quisesse, porém não foi seu desejo. O coração de Jesus ardia pelo encontro com os distanciados. Não tinha preocupação de deixar um grande e alegre banquete na casa de seu Pai junto aos seus irmãos e ir em direção daquele que se perdeu no caminho.


A humildade conquista terras. Ser humildade é reclinar diante de quem precisa sem a interferência do ego que te confrontaria diante do merecimento do outro. A humildade conquista a terra da alma desgarrada, daquele marido destruído pelas falhas, da esposa abandonada na omissão, do filho rebelde pela falta de atenção, da filha que se distanciou a procura de um colo, pois não o encontrou em casa. Felizes os humildes pois eles herdarão muitas terras.


A cruz é o ápice da humildade. Revela o Poder em si, se fazendo fraco, entretanto, não se fez como alguém que interpreta uma peça no palco, mas se fez abdicando de toda força que tem. Se abaixou como alguém que reclina para ouvir a dor de um caído na rua ou a necessidade de uma criança. Se inclinou, pois, ouve melhor quem ouve ao pé do ouvido.


Herança é mais que obter coisas é absorver olhares, corações, pessoas. Conquiste quem trabalha do seu lado, quem mora do seu lado, quem dorme do seu lado, quem se distanciou. A felicidade bate à porta dos que reclinam ao outro.


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