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  • Tiago Sant'Ana

CHORAR



Na sua segunda bem-aventurança Jesus diz: “Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. (Mateus 5:4). Aprendemos desde cedo que há restrições quanto a tal manifestação, uma delas é que: Homem não chora! Isto é, estereótipos construídos por um sistema, tal como da frase citada, que trabalhava para informar os seus “robôs”, programando o seu ser e proceder. Informava, mas não formava uma vida autêntica, pois no processo perdeu-se momentos de partilha e apoio mutuo, esqueceu-se de se humanizar na caminhada da vida. Esse modelo profetizou que o choro, tornaria o masculino em feminino, sensibilizaria o rígido e, portanto, o choro deveria ser “engolido”, pois é coisa de “mulherzinha” expressar a dor.


Quando Jesus anuncia a segunda bem-aventurança, tem como pressuposto claro a primeira, onde o indivíduo assume seu status de pobreza e impotência. O que segue, portanto, é o choro por falta de força para encarar a vida, por reconhecer que as situações se agigantaram e não há caminhos se abrindo diante dos olhos.


Há pessoas, homens e mulheres, que trazem sobre si o peso da responsabilidade de sempre se mostrarem fortes. Seus familiares, filhos, cônjuges, pais precisam encarar que está tudo bem com ela, mesmo que o mundo ao redor esteja desabando. Muitos profissionais na ânsia de se provar indispensáveis para suas empresas e seus clientes, não atestam determinada incapacidade, pois assim não seriam assimilados, contratados, visto como rentáveis, pois de outra forma não seriam financiados em suas propostas.


Cada vez mais o jugo, a canga, o peso carregado se avoluma. Desumanizados a cada empreitada, percebidos como máquinas ou como a peças da tal engrenagem que industrializou a existência. Nosso sangue se converteu em óleo, nossas mãos em retroescavadeiras, nossos pés só servem para amassar as uvas que servirão para o vinho do “doutor”, a mente foi modelada pelos golpes midiáticos e não lapidamos o que ouvimos, vemos e lemos. O coração é apenas o motor que vai falindo, cansando. Não morremos no dia determinado, mas morremos um pouco a cada dia.


O choro da impotência é choro de reconhecimento de quem se é. Faz parte do processo de percepção e reavaliação do que estamos nos tornando. Chorar, lava a alma, como também esvazia as cisternas cheias de imundícies, pois água parada é sinônimo de doença.


Chora-se pelo adeus temporário ou pelo definitivo. Chora-se na morte de Marielle Franco, Anderson Pedro, do menino Benjamim, do policial Rogério Lima, na morte dos Joões, dos Josés, das Marias, idosos, crianças. Onde morre um, morremos todos nós um pouco mais. O que não pode morrer é a honestidade da dor, pois o choro não deve ser partidário ou ideológico. O choro sincero que brota da alma será consolado por Aquele que chorou a morte do amigo após 4 dias deste morto.


Na empreitada de contextualizar sem ferir o texto, atualizo a bem-aventurança: Felizes são aqueles que choram pela dor, pela perda de alguém querido, pelos projetos que ruíram diante de seus olhos, todos esses são felizes pois o choro desnudou o que eles estavam se tornando, como se desumanizaram, como a autenticidade foi perdida pelo caminho de uma pseudo-felicidade, assim, descalejaram a alma e a sensibilizaram mais uma vez, portanto, eles serão consolados.


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